terça-feira, 21 de julho de 2009

" Foi lindo! "




“O conhecimento melhora a vida na Terra. Liberta e traz felicidade.”

MEN-TI-RA. Das mais deslavadas que escutei nos últimos tempos. E olhe que os tempos hoje são tão verdadeiros quanto uma nota de 3 reais!

Vi a frase no Café Filosófico. No mesmo instante, lembrei-me do Fabiano. Sim, sim - de Graciliano. Fabiano das alpercatas: homem-bicho na aridez de Vidas Secas.

“Se aprendesse qualquer coisa, necessitaria aprender mais, e nunca ficaria satisfeito.”

Conhecimento é desassossego. Ou vai dizer que dá para ficar tranquilo quando se percebe o mundão que é a ignorância alheia? E a própria, então?! E as milhões de contradições com as quais nos deparamos; a não-leveza de saber decodificar tantas informações; a inquietação que pode ser ter e unir ideias; a angústia de ver além?

É teia. Não é aritmético nem tem ponto final. É interrogação. Labirinto. E pede mais e mais e - volto a Fabiano - nunca ficamos satisfeito.

BINGO! Tal insatisfação deve, então, ser produtiva. Impulsionada pela educação, não pelo treinamento – adestramento – que vemos por essas bandas. Aprender não é tortura, não há que ser forçoso, mecânico. Vem à mente, Joel Rufino dos Santos. Em Épuras do Social, Joel não cita dados para explicar a pobreza: ele fala de literatura, afeição e desejo. Soa bem mais interessante, não? Portanto, mais “libertador”. Quem sabe, um dia, um pezinho fora da caverna?

Por fim, vi um livro perdido pela casa. A cada página, um rabisco, uma palavra sublinhada, uma nota. Engraçado, na última, quase como um suspiro depois de um Foucault bem lido, apreendido, explorado: “Foi lindo!”

Aposto que foi!

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Sem o mais importante não faz sentido


Nas últimas semanas, transitando pelas ruas de Fortaleza, ou seja, entre um buraco e outro nessa cidade que não sabe chover, alguns outdoors foram capazes de agradar a quem escreve essas linhas. Um deles, o célebre versículo em João: “_____-vos uns aos outros como eu vos _____.” Abaixo, letras menores: “Sem o mais importante não faz sentido.”

De fato, não faz. E não me limito à data cristã dos últimos dias, até porque minha ligação com religião ou coisa que o valha é tão frágil quanto o mais fino dos fios de cabelo. Nem ao “amar” ausente nas lacunas. Refiro-me às escolhas que traduzem nossa troca do material pelo formal. À abdicação de uma suposta essência das coisas. A “copinhos” que pudessem ser preenchidos, estão vazios.

Proponho: reveja os elogios que você recebeu nos últimos dias. Quantos eram de todo verdadeiros? Vem-me à cabeça o “Conhece-te a ti mesmo.” Só assim para discernir a palavra limpa daquela que é revestida de intenção ou daquela que é conseqüência* da mera falta de assunto.

Poderia arrolar diversas outras situações, já que o cotidiano está recheado de exemplos. Receber um certificado sem fazer nada para merecê-lo. Fotografar-fotografar-fotografar sem que haja registro em memória ou sensorial de um momento. Ler um texto sem entendê-lo. Relacionar-se com alguém e manter outro alguém. Comprar pelo ato de comprar. [...] Comuns?

Viver pede significados. E esses significados pressupõem valorações. Seja possível, então, o inteiro. O completo, o cheio do melhor. Para que Wilde possa, por um momento, parecer um pouquinho menos gênio quando disse que “as pessoas conhecem o preço de tudo e o valor de nada”.
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* Ignorando a língua que é viva, penso: "Difícil escrever sem trema!" .

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

"Para delírio das gerais no Coliseu"


Sequer sei explicar o que é impedimento. Não sei mesmo. Talvez, nunca tenha aprendido para continuar a dizer que não sei o que é. Quem entende?

Coincidência. Ao esperar a partida entre São Paulo e Goiás folheio, o livro Vocês Terráqueas de Ricardo Kelmer. Leio a crônica Loiras, celulite e futebol, onde o autor enumera os terríveis inimigos das mulher: Ruga, Celulite, Ex. “Inimigos clássicos” e “entidades cruéis”. Porém, segue a lista afirmando que o Futebol, esse sim, é o inimigo mais forte.

Quem não gosta de futebol, não deve, então, gostar de gente. E, quando falo em futebol, não deve ser entendida a prática esportiva somente, mas todo o universo que lhe diz respeito. Já que tal universo é uma das instituições mais presentes na vida do brasileiro, é preciso pensar o futebol e raciocinar a paixão de tantos.

Arrisco-me a dizer que o futebol brasileiro é a nossa mais fiel representação: é miscigenado (nos mais diversos sentidos), bonito, imprevisível, desorganizado, tem uma carga de malemolência e malandragem e padece do mal da corrupção.

Há herói maior no Brasil que aquele que sujava as canelas de lama, entretanto, nos fez dependentes de seu talento e passou a morar em castelos na Europa? Queremos identificação com eles. Desejamos que o êxito da individualidade atinja a uma coletividade. E somos coletividade quando torcedores.

E torcemos.

“Posso morrer pelo meu time”. O verso do Samuel Rosa e do Nando Reis é claro. Noutros casos, podem “matar”. O recente episódio do Wanderley Luxemburgo fez-me boquiaberta. Agredido por torcedores em Congonhas, sofreu uma fratura no cotovelo. No primeiro momento fiquei indignada, mesmo não simpatizando com o Luxa. Como é que pode? Depois, pensei em algo que me pareceu tão doloroso quanto a tipóia do técnico: o único motivo de alegria que alguns indivíduos podem ter -principalmente nesse país- vem das vitórias de um time de futebol. Não um escrete qualquer: o clube pelo qual o torcedor nutre um sentimento. E sabemos: sentimento gratuito? Provavelmente, nem o de mãe.

Com a palavra, Romário: "Eu posso colocar a Copa do Mundo para o brasileiro como se fosse um prato de comida. Se a gente ganhar esta Copa, estará dando um prato de comida para esse povo que está com fome. "

E, infelizmente, quem há de negar?

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O título é verso da letra de O FUTEBOL de Chico Buarque.

Parabéns ao São Paulo F.C., o time do Peixoto!

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Lo(u)comoção


Em um de meus percursos diários, a cena: na fachada do prédio à esquina da Avenida 13 de maio com Av. Luciano Carneiro, dois rapazes, um deles munido de um violão, serenidade. Além do estranhamento: foi susto mesmo. A expressão de abriram-o-mar-vermelho em meu rosto deu lugar à inveja: como podiam os dois estarem indiferentes à loucura que se fazia tão pertinho?

Todos os dias, mais e mais (e mais!) carros são lançados às ruas. Uma frota nova e diversificada, para ainda mais diversos bolsos.

Um probleminha: as pessoas, que, provavelmente, sonharam em comprar a idéia de liberdade, velocidade e poder, deparam-se com a lentidão em espaços claustrofóbicos do trânsito. E mais: canções de gosto duvidoso compartilhadas em valores astronômicos de decibéis, luzes de tantas cores e o mal - por vezes necessário – da buzina. No caldo também: motoqueiros, taxistas, pedestres...

Tudo se agrava pela competição que rege o trânsito. O que me parece é que, mesmo as pessoas mais polidas e tranqüilas, ainda que em menor grau, padecem do tormento do Pateta no famigerado episódio no qual o Sr. Walker, ao entrar no carro, passa a Sr. Wheeler. Assim, estamos em um campo de batalha a protagonizar situações que vão do egoísmo ao fechar o cruzamento para não perder o sinal até a estupidez do vidro baixo a gritar incivilidades para quem quer que seja.

Certamente, nem nos mais distantes desvarios de Karl Benz e Henry Ford havia tantas multas, tão graves acidentes, tamanha poluição.

Ademais, somamos a falta de planejamento e investimento em transporte coletivo e a hostilidade típica das nossas metrópoles. Piadas à parte, nem de bicicleta sei andar.

O que fazer?

18h30.
Fogo e enxofre?
O inferno é de asfalto.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Não se nasce mulher. Torna-se.



Infelizes motivos alérgicos:

- Não posso mais usar maquiagem.

-Jura? Que horrível! Já pensou? Perde toda a feminilidade.


A feminilidade não vem em potinhos de 3g. Também não tem a ver com bolsas e pares de sapatos, esmaltes vermelhos e diamonds de Monroe. Feminilidade não se compra. Apesar de tentarem vendê-la.

A auto-estima do cuidado é feminina. Importantíssima! Por outro lado, valorizar o vazio é um passo para trás. E, depois de tanto tempo acreditadas como homem incompleto*, alguns comportamentos podem ser pensados com uma mãozinha da sabedoria popular: a mulher nunca tinha provado mel; agora, se lambuza.

Ao macaquear caras e bocas, imersa em silicone e ácido hialurônico, travestida de uma sedução (que, muitas vezes, mais remete à vulgaridade) e simular segurança e dominação capazes até de enganar alguns, a mulher está presa aos velhos espartilhos. E os espartilhos estão tão apertados que a impossibilitam de raciocinar.

Vanguarda é ser inteligente e o glamour pode morar na espontaneidade da rotina.

No mais, VIVA: Curie, Kahlo, Amaral, Lispector, Elis, Pagu, Milhazes!



* Aristóteles.



A foto e a frase-título são de Simone de Beauvoir, "La Scandaleuse" .


quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Criaturas




Em minha primeira visita ao Instituto Penal Feminino Desembargadora Auri Moura Costa, o presídio foi-me apresentado em uma conversa amistosa - com direito a mousse de maracujá feito pelas detentas - quase como um hotelzinho de poucas estrelas em Itaitinga, com um vizinho ilustre: o IPPS, Instituto Penal Paulo Sarasate.

Sim, o único presídio feminino do Ceará é modelo. Apesar de que, a meu ver, não é preciso muito para ser exemplo em um Estado onde os presos recebem sua alimentação não em pratos ou mesmo cumbucas, mas em sacos. Em resumo: o Auri Moura Costa é organizado, tem salas de aula coloridas, cozinha e padaria limpas, celas com quatro pessoas e funcionários que recebem cortesmente os acadêmicos, majoritariamente, dos cursos particulares de Direito da nossa cidade.

Agora, um pouquinho do outro lado.

“Essas criaturas aqui são muito carentes”, fala a funcionária. E vou para o parlatório, agora sem os urubus (como os agentes penitenciários se denominam¹).

“Deixa eu contar minha história.”, disse direta a colombiana Carla², no seu portunhol rápido e baixo. A mulher à minha frente, tinha especialização, pós-graduação, dois empregos e foi apontada pelo marido para a Polícia Federal como cúmplice no porte da cocaína. Carla diz-se inocente. Algo que, àquele momento, não coube a mim julgar, mas me lembrou da cena de Carandiru – “Aqui dentro ninguém é culpado”.

Doralice custou a dizer: latrocínio. Ré primária, a ex-doméstica estava recolhida há 4 anos, conseqüência de um relacionamento amoroso. Falou que, embora vivam com tantas dificuldades, aprendeu muito no Auri, inclusive a ler. Doralice freqüenta o venustério, isto é, recebe visita íntima. Alegre, Dora despediu-se e pôs as mãos na grade que nos separava para que eu as tocasse, num gesto que me deixou arrepiada. Qual o tamanho da distância entre as pessoas que a grade separava? Não me atrevo a responder.

Elaine, envolvida com um rapaz há 2 meses, estava lá “pelo 159” – extorsão mediante seqüestro. A moça tinha um olhar em outra dimensão. Era bonita e tinha uma filha de 7 anos, cuja avó mudou de escola e, depois, de cidade para “evitar problemas”. Durante o relato, Elaine chora. E eu, sem jeito, naquele momento, senti meu coração dilacerado como nunca antes sentira.

A pequenez das linhas acima é inversamente proporcional ao que me foi relatado. Também por acreditar que toda criatura pressupõe um criador, saio do I.P.F. acompanhada de um peso que não consigo descrever.

Imagine quem lá fica.





¹ Só há mulheres como agentes, porém, pela realização da Semana da Presidiária (jogos, palestras etc.) agentes homens foram acompanhar os eventos.

² Nomes fictícios.




A foto acima foi feita por mim na primeira visita.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Tal Qual Novela






Ele: Kenneth Good, antropólogo americano, 38 anos, na Amazônia para trabalho de campo sobre os Yanomami*.

Ela: Yarima, índia Yanomami, com menos da metade da idade de Kenneth.

Para que permanecesse na tribo, foi oferecida a Good uma jovem em casamento. O antropólogo, sabendo que a união poderia ser anulada se os dois não se dessem bem, aceitou. Depois de tempos, Good leva Yarima para morar em Nova Jérsei, onde vivem com seus três filhos no mais típico american way of life.

Citado o caso em uma dentre tantas aulas a que participo por semana, o questionamento que me veio à cabeça não dizia respeito diretamente, ao choque de culturas, à etnografia ou à antropologia. Uma pergunta somente: O que faz o amor surgir?

Dias pensando em alguma resposta: dezenas possíveis, já que tal pergunta agrega elementos muitos. Um psicanalista, por exemplo, o que responderia? E um sociólogo? Um poeta? Um enamorado? E o próprio Good? E Yarima? E você?

Percebo: antes de pensar de onde surge, é preciso saber o que é. Quando então me dou conta de que é tão pequeno usar-se de cercas com o amor. Só resta sentir.

Por fim, o conto de fadas da floresta tem um desfecho ainda mais inusitado do que o começo. Yarima deixa Ken e os filhos e volta para a sua tribo.



*Variação da grafia: Ianomâmi.


A imagem acima é capa do livro no qual Kenneth Good relata suas experiências na Amazônia e sua história com Yarima.